Luz após a mais longa noite

Por Redação 23/12/2020 - 18:34 hs
Foto: Reprodução

Como as mais populares festas religiosas de fim de ano praticadas no Brasil têm origem na Europa e no Oriente Médio, tratamos aqui do solstício de Inverno. Religiões de matriz africana e de povos nativos brasileiros certamente têm celebrações do solstício de Verão, mas não são eventos de massa. Enfim, tratamos nessa reportagem as religiões de um ponto de vista estritamente antropológico e histórico. Por fim, ressaltamos nosso respeito a todas e reverência a nenhuma  

Hoje é 23 de dezembro de 2020. Na última sexta-feira dia 18, judeus de todo o mundo concluíram o Hanukkah, a festa das luzes. Nessa quinta-feira dia 24, bilhões de cristãos celebrarão o nascimento de Jesus. Na próxima segunda-feira dia 28, religiões neopagãs (mesmo as que não se aceitam como “neo”) começam a celebração de Yule no Hemisfério Norte. No Irã, a despeito da predominância do Islã, o Shab-e Yalda ainda homenageia o nascimento de Mitra. Na China, oficialmente ateia, o Dong Zhi continua a congregar celebrantes. E lista segue.

Como é possível que povos tão diferentes tenham celebrações de significados semelhantes no mesmo período do ano? A resposta está no que hoje chamamos de Astronomia. O solstício de Inverno, que acontece no dia 21 no Hemisfério Norte, enquanto aqui encaramos o solstício de Verão e o calor infernal que vem com ele.

Mas, afinal de contas, o que é o solstício de Inverno? Em seu movimento de translação, a volta completa em torno do Sol, a Terra não fica parada. Ela se inclina alternadamente, e daí vêm as estações do ano. O solstício de inverno é quando determinado polo está mais distante do Sol. É a noite mais longa do ano. Em certas partes, é uma noite que dura meses.

Agora, esqueça por um instante os confortos da vida modera e imagine nossos ancestrais há, digamos, 50 mil anos. Vivendo em cavernas ou choupanas, dependiam do meio ambiente para sobreviver. Periodicamente, a caça escasseava, os animais migravam ou se recolhiam para hibernar; a neve cobria a terra e parecia matar a natureza. As noites se tornavam mais longas — e, não podemos esquecer, a noite é escura e cheia de horrores. Com o advento da agricultura, as estações se tornaram ainda mais importantes. Monumentos astronômicos megalíticos como Stonehenge, na Inglaterra, marcavam a data, e celebrações pediam a volta do sol e da vida. Era a religião da natureza.

No best seller Sapiens – Uma Breve História da HumanidadeYuval Noah Harari nos lembra que “a religião pode ser definida como um sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença em uma ordem sobre-humana”. A ordem sobre-humana são os ciclos da natureza, mas os valores humanos mudam conforme as civilizações se desenvolvem. Explicações mais complexas vão sendo criadas para esses ciclos. Para os gregos, o Inverno era a punição de Deméter pela filha Core se tornar Perséfone e viver no mundo inferior com o tio-marido Hades. Só quando esta lhe era devolvida por seis meses a deusa permitia ao mundo florescer.

À medida que as sociedades se urbanizavam, as raízes naturais de suas religiões iam se perdendo, suas datas sagradas e festividades eram ressignificadas, mantendo o simbolismo familiar aos fiéis, mas incorporando os panteões e a ideologia vigentes. Em Roma, uma civilização recente sem passado neolítico ou mitológico, o solstício se tornou a Saturnália, uma festa com influências tanto sobre o Natal quando o Carnaval como os conhecemos hoje.

Como a noite mais longa do ano marca, por conseguinte, o retorno da luz, o solstício de Inverno passou a ser associado ao nascimento de deuses solares, dos quais um merece destaque: Mitra. Originário da Índia, seu culto chegou ao Oriente Médio no segundo milênio a.C. e acabou incorporado ao mazdaísmo, a religião monoteísta persa da qual deriva boa parte da cosmogonia cristã. Paradoxalmente, Mitra foi adotado pelos militares romanos, inimigos dos persas. A partir do século I a.C., seu mito se associou ao do deus-sol Hélio e ao solstício de Inverno. Mitra nasce do choque de um raio com uma rocha no dia 25 de dezembro, mesma data em que os romanos comemoravam o Sol Invictus, o Sol Invencível.

E, como a data indica, chegamos ao rabi Yoshua ben Yosef, que, por má tradução dos gregos, chamamos de Jesus. No livro O Primeiro Natal, os teólogos norte-americanos Marcus J. Borg e John Dominic Crossan analisam detalhadamente as versões da Natividade presente nos Evangelhos de Lucas e Mateus. Além de demonstrarem que as narrativas são radicalmente diferentes entre si, eles constatam que não há qualquer menção à data de nascimento de Jesus. Os autores não têm dúvidas de que os evangelistas usaram, para narrar a Natividade, o mesmo recurso dos sermões de Jesus. Parábolas. A presença de pastores e seus rebanhos nos campos indica, com certeza, que não era Inverno.

Então de onde veio o 25 de dezembro? 

Clemente de Alexandria (150-215), um dos primeiros apologistas cristãos a tratar do nascimento de Jesus, não menciona essa data em especial – para ele, 20 de maio seria o dia mais provável. Somente nos séculos IV e V, conforme o cristianismo se torna a religião oficial do Império, a data se consolida. Apologistas como Agostinho tentavam negar que fosse simples apropriação do Sol Invictus, alegando que o nascimento correspondia a nove meses após a concepção de Jesus – embora esta também não tenha uma data estabelecida nos Evangelhos. Muitas comunidades cristãs até hoje celebram a Natividade no dia 6 de janeiro, o Dia de Reis dos católicos.

Conforme a conversão ao cristianismo se espalhava pela Europa, mais e mais elementos pagãos do solstício eram incorporados à narrativa e, principalmente, aos símbolos do Natal cristão. O que nos traz a mais uma celebração, o Yule ou Jól, a festividade do solstício de Inverno entre os povos germânicos. Alguém já viu um pinheiro na Galileia? Um azevinho? Não. Essas árvores, que não perdem as folhas mesmo no auge do inverno europeu, eram símbolos da renovação nas religiões pagãs europeias. No Velho Mundo e mesmo nos ultracristãos Estados Unidos, as pessoas se referem ao fogo aceso em lareiras no fim do ano como a “tora de Yule”.

Oito dias de luzes

Um festival peculiar em torno do solstício é o Hanukkah judeu, a festa das luzes. Entre outras, por ser recente em termos históricos. Segundo a tradição judaica, após liderar uma revolta vitoriosa contra o rei da Síria em 164 a.C., Judas Macabeu retornou a Jerusalém para “limpar” o templo profanado. Embora só houvesse óleo para manter a menorá (o candelabro sagrado) acesa por um dia, a chama brilhou por oito noites. A revolta é um fato histórico, mas o milagre em si se tornou uma tradição ao longo da diáspora, possivelmente assimilando elementos de festividades do solstício.

O nome é Nicolau, mas Odin também vale

Mas não foi só na “parte séria” das festividades que o sincretismo do solstício se instalou. A inspiração de São Nicolau, generoso protetor das crianças, para o Papai Noel é conhecida. Mas de onde vêm as renas voadoras e o trenó, por exemplo? Nascido em Bari, na Itália, e morto Mira, hoje Turquia, é pouco provável que o santo tenha visto um desses animais, mesmo do tipo comum, ao longo de seus 73 anos de vida. Acontece que Nicolau não é a única fonte do Bom Velhinho. Tradições do Norte da Europa diziam que, no Yule, Odin cavalgava pelos céus em seu cavalo de oito patas. Crianças deixavam suas botas do lado de fora das casas com cenouras para o animal, ao que o deus retribuía com moedas.

No fim das contas, pouco importa, a não ser para fanáticos, que essas narrativas sejam literais. O fato é que a noite mais escura ficará para trás. Que, dentro de suas crenças, cada um celebrará a esperança na luz. Já é algo a comemorar. (Fonte: Portal Meio - Leonardo Pimentel)