De médico a paciente: conheça a trajetória de Romeu Tolentino

Nesta entrevista, o médico relata sobre sua vida profissional e o momento em que precisou de um transplante de fígado

Por Redação 20/03/2020 - 16:34 hs
Foto: Douglas Trukane



Makelen Rotta
da redação

Graduado em medicina pela Faculdade Evangélica de Curitiba, Romeu Tolentino, 75, fez residência médica em Oftalmologia no Hospital Evangélico de Curitiba e no Hospital de Olhos do Paraná. Tem título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, é membro da American Academy of Opghthalmology e membro sócio do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Casado com Rosa Tolentino, pai de Andressa e Diego, e avô de dois, Dr. Romeu conta um percurso de atuação em diversas instituições na sociedade, iniciado ainda na época da faculdade em que foi presidente de diretório acadêmico e de conselho de médicos residentes. Sua história faz parte do desenvolvimento da oftalmologia em Cascavel, local onde iniciou seus trabalhos em 1981. São mais de 40 anos dedicados a medicina, com um atendimento humanizado e visão empreendedora. Atualmente, Tolentino também é o idealizador de uma campanha que busca sensibilizar a população acerca da doação de órgãos, motivo pelo qual o levou a iniciar a ação. Saiba mais a respeito nas próximas linhas.

JCM – Por que optou pela Oftalmologia?

Dr. Romeu – Quando estava no quinto ano da faculdade estagiei em Obstetrícia, achando que iria me especializar nesta área. Porém, no primeiro plantão já percebi que não era isso que eu realmente queria, porque as crianças nascem de madrugada e eu gosto de dormir (risos). Pois bem, meu concunhado, que é oftalmologista, me convidou para ver cirurgias e depois de um tempo me chamou para auxiliá-lo. Logo também passei a trabalhar em um consultório de oftalmologia. Me formei em 1978 e então iniciei a especialização, voltada principalmente ao traumatismo de globo ocular.

JCM – Como foi o início do seu trabalho em Cascavel?

Dr. Romeu – Minha ideia era abrir uma clínica, mas eu não tinha condições, então fui trabalhando e, quando consegui, montei um negócio. Éramos em dois sócios e ficamos 14 anos trabalhando juntos até nos separarmos e eu fundar esta unidade, em 1998. Muitas profissionais já passaram por aqui e atualmente o Centro Especializado em Oftalmologia do Oeste do Paraná (CEOP) conta com mais três médicos oftalmologistas, um deles, inclusive, é meu filho. Também atuei por 10 anos no Hospital Policlínica, fazendo atendimentos e cirurgias.

JCM – Como você avalia a sua experiência profissional e a evolução da medicina, levando em conta o desenvolvimento tecnológico?

Dr. Romeu – A evolução foi muito grande e importante. Quando iniciamos na profissão era muito difícil fazer operações, o microscópio e os materiais cirúrgicos eram inferiores aos que temos atualmente. Por exemplo: antigamente, numa cirurgia de catarata, não existiam lentes para colocar nos olhos, então receitávamos óculos de 14 graus e o paciente tinha que passar cinco dias deitado. Hoje, a cirurgia termina e o paciente levanta e vai embora. Cirurgias que eram realizadas com cortes hoje são feitas a laser. A mudança nos procedimentos contribuiu para uma recuperação mais rápida o que é extremamente benéfico para o paciente e nós enquanto profissionais temos que acompanhar os avanços. Então, fui a congressos, cursos e capacitações, e com o tempo me aprimorei e adquiri equipamentos novos, tudo para chegar na tecnologia de ponta que há hoje.

JCM – Você precisou passar por um transplante de fígado há nove anos. Como foi a descoberta da doença?

Dr. Romeu – Em 1990 adquiri o vírus da hepatite e naquela época não havia tratamento. Oito anos depois, levei meu filho para tirar sangue e, como ele tinha medo, tirei o meu também. Com o exame fui informado que meu número de plaquetas estava muito baixo. Então fui até um hematologista que não conseguiu um diagnóstico. Depois, ao fazer um ultrassom no fígado, descobri que estava em um estágio avançado de cirrose. Tiveram vários desdobramentos e, apesar de fazer um acompanhamento em São Paulo, certo momento entrei em coma e acordei somente após três dias. Depois de dois meses, isso ocorreu novamente e então fui a Blumenau, fiz a inscrição para o transplante e fiquei aguardando na fila. Em um terceiro episódio de coma, acordei em um hospital em Curitiba e descobri que além da insuficiência hepática, também tinha insuficiência renal, o que me deixava em risco de morte.

JCM – Como você reagiu a situação e como foi o processo de transplante?

Dr. Romeu – Devido ao risco, fui colocado em primeiro na fila de transplante, mas mesmo assim tive que aguardar um fígado que estivesse disponível e que fosse compatível. Olha como são as coisas: alguém teria que morrer para eu me salvar. Poxa! E o fígado apareceu. Fiz o transplante, me recuperei e minha qualidade de vida melhorou muito. Tudo o que aconteceu comigo fez com que meu espírito se aperfeiçoasse. Acredito que se minha vida foi preservada é porque ainda tenho coisas a fazer. Recebi esse presente que dinheiro algum pode pagar.

JCM – A campanha sobre doação de órgãos veio como uma forma de retribuição pelo transplante?

Dr. Romeu – Sim. Uma hora me deu um "clique" e eu soube que precisava fazer algo. Foi então que idealizei a campanha e de dois anos pra cá faço palestras para conscientização das pessoas sobre a importância de se doar órgãos.

JCM – O que espera conquistar com esta campanha?

Dr. Romeu – Quero “abrir” os olhos das pessoas. Eu recebi um órgão, não conheci a pessoa que me doou e não gastei nada no procedimento. É necessário divulgar isso, pois há muitas pessoas precisando de transplante.

JCM – Para finalizar, o que você ainda pretende fazer em sua vida?

Dr. Romeu – Há muitas coisas que não fiz ainda! Em 100 anos não conseguimos fazer tudo (risos). Pretendo continuar da maneira como sempre fiz, talvez desacelerar um pouco, mas continuarei me envolvendo com as coisas e até o fim da minha vida vou falar sobre doação de órgãos, pois só estou vivo por isso. Jamais vou parar, estou muito bem fazendo o que gosto. Deus dá nos dá a carga que suportamos, então Ele sabe que tudo que eu começar, vou cumprir.